Ontem e hoje

Falta urbanização e sobra pobreza, dizem especialistas

Thiago Fernandes

Fundada num espaço geográfico privilegiado, dividida em cidade alta e baixa, Salvador tem belezas naturais que encantam turistas e mesmo os próprios soteropolitanos que se reservam ao direito de admirar a cidade.

Ao completar 458 anos de fundação, no entanto, não são poucos os problemas enfrentados por sua população, que já ultrapassa a marca de 2,7 milhões, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A capital baiana apresenta problemas típicos de uma metrópole, com crescimento desordenado e ocupação urbana precária.

Entre as questões, engarrafamentos cada vez mais constantes, ocupação de encostas, deslizamento de terra, favelização e má distribuição de renda. A reportagem do A Tarde On Line compilou abaixo alguns dos problemas que afligem os moradores da cidade.

Urbanização

Quando se trata das questões urbanísticas de Salvador, os problemas podem ser resumidos em uma palavra: acessibilidade. Para o arquiteto e urbanista Armando Branco, a cidade sofre hoje as conseqüências de uma falta de planejamento de crescimento pensado no pedestre, na população que não tem veículo particular e nos cidadãos que apresentam alguma dificuldade de locomoção. "Se você parar para pensar, vai ver que essa questão está no centro de vários outros problemas da cidade", afirma.

Branco destaca os constantes engarrafamentos, antes restritos aos horários de pico e a regiões críticas como o Iguatemi. Atualmente, acontecem por toda a cidade e a qualquer hora do dia. A situação se explica pelo aumento do número de carros em circulação na cidade nos últimos anos. Em média, a frota soteropolitana cresce 6% ao ano e chegou, em dezembro de 2006, a 550 mil veículos em circulação, segundo dados do Detran. "Muitos podem achar que a solução para este problema é a abertura de novas avenidas e vias de acesso, mas já está comprovado que isso não adianta. Os veículos rapidamente vão ocupar essas novas vias", afirma Branco.

A solução apontada pelos especialistas passa pela valorização do transporte público e a utilização de veículos alternativos, como as bicicletas, em lugar dos veículos particulares. O problema são as limitações do transporte urbano, que não oferece o conforto e a conveniência suficientes para convencer as pessoas a abrirem mão do veículo próprio para utilizar o coletivo. Associado a isso está a cultura de valorização do automóvel e as dificuldades de deslocamento a pé pela cidade.

Calçadas danificadas ou ocupadas por camelôs, barracas, equipamentos urbanos e os próprios veículos virou rotina nos bairros da capital. Para a gerente de projetos da Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET), Gisnaia Camargo, o órgão está atento à necessidade de valorizar o pedestre e o transporte coletivo. Segundo ela, iniciativas como a implantação das faixas exclusivas para ônibus urbanos e as campanhas de para incentivar o respeito ao pedestre seguem essa filosofia.

Sujeira

Lixo nas ruas se transformou em paisagem na capital baiana. O hábito de jogar resíduos sólidos em via pública é apontado por especialistas como um dos fatores que contribuem para agravar problemas como a drenagem precária e entupimento dos canais de escoamento. Além disso, lixeiras mal projetadas e montanhas de sacos plásticos estão por toda a cidade, mesmo em bairros considerados nobres, como a Pituba.

Para a pesquisadora Rita de Cássia Rego, do Instituto de Saúde Coletiva da Ufba, a questão está diretamente ligada à educação da população. Rita coordenou em 2002 uma pesquisa sobre a percepção das mulheres moradoras da periferia de Salvador quanto à relação do lixo com a transmissão de doenças e como origem de outros transtornos para a população. O estudo apontou que não há uma consciência das pessoas quanto a sua contribuição para a solução do caso.

A pesquisa indica que é comum as pessoas afirmarem estar cumprindo suas obrigações quanto a esse aspecto e apontar "os outros" como responsáveis por colocar lixo em local inadequado. Normalmente atribuem o problema à falta de educação da população de uma forma geral.

"As pessoas sempre colocam a culpa nos vizinhos e evitam julgar suas próprias atitudes", afirma. Para reverter o quadro, o estudo propõe uma discussão sobre o que realmente é considerado lixo e o que pode ser reaproveitado ou reciclado. Além disso, são necessárias campanhas informativas sobre os riscos trazidos pelo descarte inadequado dos resíduos domésticos.

A sugestão da pesquisadora é o investimento em processos de coleta seletiva que priorizem o aspecto ambiental da reciclagem de materiais. De acordo com informações da Limpurb, atualmente esse tipo de coleta é feito em menos de 30% do total do lixo recolhido na capital.

Pobreza e exclusão

De acordo com dados do IBGE, Salvador tem um PIB per capta menor do que a média nacional. Os dados mais recentes, de 2004, mostram a cidade com uma renda anual de R$5.400, contra R$9.700 na média de todos os municípios do país. O PIB per capta é a divisão de toda a riqueza produzida numa região pela população local.

Mesmo considerando somente as capitais nordestinas, Salvador fica atrás de Recife (R$9.600) e Fortaleza (R$ 6.800). O problema é agravado pela alta concentração de renda. Urbanisticamente, a má distribuição é visível no mapa de Salvador. A região da orla marítima concentra a maior parte da riqueza.

De acordo com dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), somente o bairro da Pituba responde por 30% de toda a riqueza da cidade, apesar de ter uma população de somente 200 mil pessoas, o que corresponde a 7,5% do total de moradores do município. Ao mesmo tempo, a população desfavorecida mora no centro do território de Salvador, conhecido como miolo.

A SEI indica, por exemplo, que a região de Cajazeiras, onde moram cerca de 300 mil pessoas (11% da população), fica com somente 2,8% da riqueza da cidade. Os números da Superintendência são de 2003 e incluem uma projeção para 2013. No cenário desenhado pelas estatísticas, a concentração de renda tende a se agravar. Segundo o estudo, daqui a seis anos, a Pituba concentrará 35% da riqueza de Salvador, enquanto Cajazeiras ficará com somente 2,1% desse montante.

Para Armando Branco, são dados como este que mostram a necessidade de se priorizar investimentos nas regiões carentes da cidade. "Tudo o que o poder público faz para essas localidades é muito pouco diante das necessidades dessa população", afirma. Para ele, é necessário um planejamento de curto prazo para minimizar o efeito das diferenças. "O problema é que não vemos nenhuma ação nesse sentido. Ninguém tem o planejamento da cidade para daqui a cinco ou dez anos. E o que vemos é que os problemas vão se agravando", lamenta.

Chuvas e drenagem

Um dos problemas mais dramáticos da ocupação desordenada de Salvador são os alagamentos e deslizamentos de terra nos períodos de chuva. Em 2006, quatro pessoas morreram vítimas de deslizamentos provocados pelas águas. No total, foram mais de dois mil registros, com 900 casas condenadas pela Defesa Civil. Uma reportagem do A Tarde On Line analisou o assunto em profundidade.

Valorizando a cidade

O sentimento de pertencer ao lugar está por trás de iniciativas como as intervenções artísticas urbanas. É o exemplo dos painéis de azulejo de Bel Borba, a exposição do fotógrafo Sérgio Guerra, os grafites nos viadutos e outros equipamentos urbanos. O embelezamento e o cuidado com o lugar onde moram levam os cidadãos a valorizar a cidade.

Essa idéia é defendida por artistas, urbanistas e arquitetos de todo o mundo. O coordenador do Instituto Pólis, Hamilton Faria, defende que a arte pública contribui para o desenvolvimento cultural e da cidadania.

"É no espaço público que as pessoas desenvolvem o senso de coletividade, a criatividade e a auto-estima", afirma, em artigo publicado pelo Instituto em 2000. O Pólis é um instituto que promove e estimula o desenvolvimento de iniciativas públicas de valorização das cidades. Para o arquiteto Armando Branco, o cuidado estético é fundamental em obras que exigem um profundo impacto visual na cidade, como é o caso do metrô.

"É nesse tipo de obra que ficam registrados os modelos artísticos de uma sociedade e de sua época. Vemos isso em todas as grandes cidades do mundo", afirma. Para ele, quando o cidadão vê a cidade valorizada, tende a também valorizar e cuidar de onde mora. "Se há uma obra de arte num canteiro ou na rua, as pessoas vão querer que não só a obra, mas também seu entorno esteja bem cuidado, vão criticar quem suja ou joga lixo ali", diz. "O que precisamos é de mais e mais iniciativas nesse sentido, para desenvolver nos cidadãos esse sentimento de cuidado", complementa.