O lixo no Brasil


MaurÍcio sotto maior

Todo e qualquer resíduo proveniente das atividades humanas ou gerado pela natureza em aglomerações urbanas se chama lixo. A quantidade de lixo produzida diariamente por um brasileiro é estimada em aproximadamente 1kg. São frutos do homem em seu consumo desenfreado de matérias-primas ou industrializadas que, sem uma destinação final adequada, agridem profundamente o meio ambiente e degrada a própria natureza humana. Mas na natureza nada se perde, nada se cria; tudo se transforma. A última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB), realizada pelo IBGE em 2000, revelou uma tendência surpreendente de melhora na situação de destinação final do lixo coletado no País nos últimos anos. Melhora, no entanto, muito aquém das nossas reais necessidades de preservação ambiental e de melhoria da qualidade de vida.
A PNSB avaliou que 63,6 % dos municípios brasileiro utilizavam lixões e 32,2 % aterros adequados, sendo que 5% não informaram para onde vão seus resíduos. Dez anos antes, a pesquisa mostrava que o percentual de municípios que destinavam seus resíduos de forma adequada era de apenas 10,7 %. A pesquisa também estimou que a quantidade coletada de lixo diariamente nas cidades com até 200.000 habitantes gira em torno de 450 a 700 gramas por habitante. Já as cidades com mais de 200 mil habitantes a quantidade aumenta para a faixa entre 800 e 1.200 gramas por habitante. A pesquisa informa que em 2000 eram coletadas diariamente 125.281 toneladas de lixo domiciliar em todos os municípios brasileiros. Hoje já se fala em mais de 200 mil toneladas.
Até a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), a ECO-92, realizada no Rio de Janeiro em 1992, o pensamento brasileiro considerava o lixo um problema municipal, de responsabilidade das prefeituras. Hoje, a questão do lixo no Brasil é pauta urgente para o poder público, empresas privadas e para a própria sociedade civil organizada. No bojo dos números do IBGE, se escondem algumas iniciativas que pretendem transformar a natureza humana através da filosofia do três “Rs”: Reduzir/Reciclar/Reutilizar. São pessoas que pensam que uma “coisa” tão cara, que gasta tanta energia e tempo para decompor na natureza, não pode ser considerada lixo. São materiais que podem ser reutilizados ou reciclados.
Para Antonio Bunchaft, diretor do Centro de Estudos Socioambientais (Pangea), o lixo hoje significa potencialidade, energia e geração de postos de trabalho dos mais rudimentares aos mais complexos. “A questão do lixo é um problema mundial. Mas existem cada vez mais tecnologias para tornar esse problema um recurso, uma potencialidade. No Brasil, esse processo está em crescimento. Porém, o que é importante observar é a necessidade fundamental de associar todo esse vasto parque de tecnologias de tratamento do lixo com a inclusão social.” O Pangea viabilizou a Cooperativa de Catadores Agentes Ecológicos de Canabrava, fundada por catadores remanescentes do antigo Lixão de Canabrava, em 2003.
De acordo com a mestre em biologia e professora da Ufba, Goya Lima, são justamente os impostos que vêm se constituindo como obstáculo para as cooperativas. “A legislação não diferencia pequenas cooperativas daquelas de grande porte. Assim, uma cooperativa formada por um grupo de jovens de uma comunidade carente de Salvador acaba pagando os mesmos impostos das grandes cooperativas rurais, por exemplo”, explica a professora e coordenadora da Cooperativa de Reciclagem Novo de Novo, citando o próprio exemplo. A cooperativa, criada pela Fundação OndAzul, trabalha com 23 jovens do Bairro da Paz, que produzem uma linha variada de mobiliário feito de garrafa PET.
De acordo com os dados da organização não-governamental Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), constituída por empresas como a Alcoa, Ambev, Wal-Mart Brasil, Philips, Sadia, entre outras, o Brasil recicla aproximadamente 1,5 % do lixo sólido orgânico urbano. No caso da resina PET, o percentual cresce para 15%, mas os maiores percentuais estão na reciclagem de latas de aço e das embalagens de vidro (35%), do papel e papelão (36%), da produção nacional de latas de alumínio (64%), e de papel ondulado (71%). Para a realização desse trabalho é fundamental um processo educacional para o recolhimento, previamente separados na origem, de materiais potencialmente recicláveis, como papéis, plásticos, vidros e metais.
Após a coleta seletiva de lixo, o seu beneficiamento, como enfardamento e acúmulo para comercialização, é vendido à indústria recicladora que o transforma em novos materiais. Apesar de tramitar um projeto de lei no Congresso Nacional há mais de dez anos, ainda não existe no Brasil uma política nacional de resíduos sólidos. Em virtude disso, alega Bertrand Sampaio da organização ambientalista Associação Pernambucana de Defesa da Natureza, a reciclagem é o mais incentivado representante dos 3Rs. “As indústrias e o comércio consideram que a reutilização, e sobretudo a redução, têm forte impacto no consumo. Já a reciclagem não, pelo contrário, potencializa o mercado, uma vez que barateia a obtenção dos materiais recicláveis onde os catadores são os maiores contribuintes e os mais explorados dessa nova cadeia produtiva.”

Exemplos baianos a partir do lixo

Na década passada o lixão de Canabrava entulhava junto com os dejetos da Região Metropolitana de Salvador mais de 700 catadores,

entre adultos e crianças. Foi um projeto elaborado pelo Centro de Estudos Socioambientais (Pangea) para a instituição italiana Cooperação para o Desenvolvimento dos Países Emergentes (Cospe) que mudou completamente a vida daquelas pessoas. Com financiamento da União Européia, foi criada a Cooperativa de Catadores Agentes Ecológicos de Canabrava (Caec). “Hoje nós temos 200 cooperativados e cerca de 800 cadastrados”, explica Antônio Bunchaft, diretor do Pangea.
Os catadores da Caec batem de porta em porta, devidamente fardados e acompanhados de carrinhos coletores, para recolher material reciclável e divulgar noções básicas de educação ambiental por meio de panfletos e outros impressos. Considerada uma iniciativa modelo, a Caec foi um dos destaques do livro “50 Jeitos Brasileiros de Mudar o Mundo: O Brasil Rumo aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, uma publicação organizada pelo Programa de Voluntários das Nações Unidas. “O importante é não se deslumbrar e aproveitar a potencialidade da reciclagem do lixo para o máximo de inclusão social. Estou falando dos milhares de catadores de materiais recicláveis que hoje vivem em condições críticas e de indigência”, pontua Antônio Bunchaft.
Para Bunchaft, a estrutura de coleta na Bahia é precária e a coleta seletiva é residual, circunscrita a algumas iniciativas promovidas por parcerias entre ONGs e prefeituras municipais. “Nós estamos enterrando dinheiro, pior nós que pagamos para enterrar dinheiro em aterros sanitários. Praticamente todo o lixo gerado hoje pelo ser humano tem tecnologias para seu reaproveitamento. Todo o lixo, em sua grande parte, acaba jogado em aterros sanitários ou lixões. Aí vem o trabalho fundamental dos catadores, que fazem a verdadeira coleta seletiva, recolhendo esses recicláveis das ruas, bueiros e lixões, aumentando a vida útil dos aterros sanitários e melhorando a qualidade do meio ambiente urbano.”
Para Goya Lima, coordenadora da Cooperativa de Reciclagem Novo de Novo, algumas iniciativas têm tido sucesso em reduzir o volume de lixo que é descartado, dando outros destinos a materiais que podem ser reciclados ou reutilizados. A Novo de Novo pretende produzir 2.500 móveis por ano, a partir do reaproveitamento de aproximadamente 150 mil garrafas PET usadas, criando 23 postos de trabalho para jovens do Bairro da Paz, gerando dezenas de empregos indiretos. A cooperativa comercializa os seus produtos desde fevereiro e, em maio passado, a renda média dos cooperados foi de R$ 450. “A nossa expectativa é que em um ano o grupo esteja gerenciando a cooperativa de forma autônoma.”
“Com garrafas PET, por exemplo, podem ser feitas vassouras, camisetas, bijuterias. A Novo de Novo reutiliza garrafas PET na produção de móveis, mas pretende ter novos produtos no futuro, talvez até usando outros materiais como papelão ou alumínio”, acrescenta Goya, que vislumbra no mercado das feiras especializadas em econegócios um vasto campo para as idéias e os produtos da cooperativa. “Algumas pessoas têm dificuldade de acreditar que o pufe é resistente e durável. Mas, a Fundação OndAzul já fez os testes necessários, constatando que os pufes da PET são tão resistentes quanto os pufes de madeira e podem ser mais duráveis”. Mais importante que reciclar o lixo é reciclar o conceito que temos dele.

Ficha Técnica do Lixo

Recicláveis:
Papel reciclável
Caixa de papelão, jornal, revista, impressos em geral, fotocópias, rascunhos, envelopes, papel timbrado, embalagens Longa-Vida, cartões, papel de fax, folhas de caderno, formulários de computador, aparas de papel, copos descartáveis, papel vegetal, papel toalha e guardanapo
Vidro reciclável
Garrafas de bebidas alcóolicas e não-alcóolicas, bem como seus cacos. Frascos em geral (molhos, condimentos, remédios, perfumes e produtos de limpeza); ampolas de remédios e potes de produtos alimentícios
Metal reciclável
Latas de alumínio (cerveja e refrigerante)
Sucatas de reforma, lata de folha de flandres (lata de óleo, salsicha e outros enlatados)
Tampinhas, arames, pregos e parafusos, objetos de cobre, alumínio, bronze, ferro, chumbo ou zinco
Canos e tubos
Plástico reciclável
Embalagens de refrigerante, de materiais de limpeza e de alimentos diversos.
Copos plásticos, canos, tubos e sacos plásticos.
Embalagens Tetrapak (misturas de papel, plástico e metal)
Embalagens de biscoito

Não recicláveis:
Papel ainda não-reciclável
Papel sanitário, papel carbono, fotografias, fitas adesivas Stencil e tocos de cigarro
Vidro ainda não-reciclável
Espelhos, vidros de janela, boxes de banheiro, lâmpadas incandescentes e fluorescentes, cristais, utensílios de vidro temperado e vidros de automóveis.
Tubos e válvulas de televisão
Cerâmica, porcelana, pirex e marinex
Metal ainda não-reciclável
Clipes e grampos
Esponjas de aço
Plástico ainda não-reciclável
Ebonite (cabos de panelas, tomadas)


Fonte: Universidade Federal de Viçosa - Viçosa (MG)

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