Por que faço jejum em Sobradinho??

D.Luiz Cappio - Bispo de Barra – BA


  • Cheguei aos sertões baianos do São Francisco, há 33 anos atrás, e logo me identifiquei com o rio. Encontrei aqui o melhor modo de imitar São Francisco, meu pai e modelo no seguimento de Jesus. Como São Francisco, também troquei uma família de posses para me dedicar aos pobres. Nasci no Sudeste, no estado de São Paulo, e vim para o sertão do Nordeste. O rio faz o mesmo, nasce no rico Sudeste, em Minas Gerais, e ao contrário dos outros rios da região corre para o empobrecido Nordeste, trazendo água e alimento. É o eixo, o centro, a artéria da vida do povo. Passei a me sentir visceralmente integrado a esse povo e seu rio, numa franciscana, espiritual ecologia.

    Dia após dia, nestes anos todos, fui observando a degradação ambiental e social do Rio São Francisco e de seus afluentes. Os ribeirinhos diziam das dificuldades crescentes em tirar das águas seu sustento: peixe escasso, vazantes menos produtivas, bancos de areia, navegação difícil, águas poluídas, rasas… Senti-me incitado a uma atitude mais contundente, além das denúncias infrutíferas. Foi então que, entre 1992 e 1993, com mais três companheiros fizemos a peregrinação, por um ano, da nascente à foz, provocando as comunidades ribeirinhas, a opinião pública e as autoridades a se juntarem numa campanha de salvação do São Francisco, rio e povo.

    A peregrinação foi extraordinária oportunidade de conhecer o São Francisco, suas mazelas, belezas e potencialidades. Ficou evidente que seus principais problemas são o desmantamento para as monoculturas e as carvoarias, que diminui os mananciais e provoca o assoreamento; a poluição urbana, industrial, minerária e agrícola; a irrigação, que além dos agrotóxicos, consome águas; as barragens e hidrelétricas que expulsam comunidades, impedem os ciclos naturais do rio e comprometem 70% de suas vazões com a energia elétrica; a pobreza e o abandono da população, a que mais sofre com as conseqüências destes abusos.

    A raíz destes males está num modelo dito de “desenvolvimento”, que nada mais é que acumulação ilimitada de capital. Estes devastadores usos irrestritos, indisciplinados e conflitantes das terras, águas e gentes do Velho Chico, voltados exclusivamente para o lucro, decretaram sua morte, que se aproxima a olhos vistos. Vê-se na acelerada devastação dos Cerrados do Oeste Baiano, produtor de suas derradeiras águas, e na transformação das Caatingas em carvão, assoreando afluentes e a calha principal. A sanha pelos agrocombustíveis a partir de cana-de-açúcar, soja e eucalipto é a mais recente ameaça, talvez a fatal.

    Não há saída para o São Francisco a não ser uma moratória geral dos projetos devastadores e um programa verdadeiro de revitalização, que será um empreendimento monumental, de gerações, a juntar o Estado e a sociedade num esforço mútuo. O atual programa é um arremedo disso, uma mera satisfação pela transposição, quando não escancarada barganha política, como na “caravana” do Ministro Geddel.

    Sobradinho é emblemático

    Escolhi Sobradinho para esse segundo jejum. Há 30 anos era construída essa barragem, que passou a ser o coração artificial do São Francisco, a funcionar refém da produção de energia elétrica – 17% da produzida no Brasil, 95% da consumida no Nordeste. Podemos afirmar que já acontece uma transposição aí, em forma de energia, uma vez que ela compromete a vazão do rio.

    Sobradinho, pelo modo autoritário como foi feito, pela expulsão de 72 mil ribeirinhos e pela destruição de áreas férteis, ficou para a história como exemplo da submissão da vida à ganância do lucro – o modelo de desenvolvimento de altos custos sociais e ambientais que está levando à morte a Bacia do São Francisco. No momento, com 14% de sua capacidade, transtornando a vida dos habitantes da borda do lago, Sobradinho é o retrato do São Francisco doente. Um exemplo do equívoco nas prioridades: as imensas dificuldades de abastecimento hídrico dos quatro municípios da borda seriam resolvidas com um projeto de R$ 13 milhões que desde 2001 espera pela vontade dos governantes…

    A prioritária transposição segue a mesma lógica e modelo de Sobradinho. E por aí vão todos os grandes projetos nacionais atualmente em pauta, dos transgênicos às hidrelétricas do rio Madeira e Angra II, passando pela concessão de florestas e de águas para empresas privadas. Assim, vão sendo entregues nossas riquezas à exploração capitalista global, com desprezo aos grandes desafios ecológicos que ameaçam a vida do planeta e a própria espécie humana.

    Por que combato a transposição?

    A transposição é mais um grande uso econômico que se agrega, aumentando a pressão e a disputa pelas minguadas águas do Velho Chico, consolidando o modelo abusivo e sem futuro, que só vê lucro onde o povo ribeirinho vê o pai e mãe da vida.

    Para grande decepção nossa, o Governo de Lula começou a transposição, na contramão dos movimentos sociais e entidades civis do Nordeste empenhadas na convivência com o Semi-árido. Considero esse trabalho da convivência uma das maiores revoluções silenciosas em curso no meio do povo brasileiro. Mas o Governo optou pelo retrocesso, deixou-se capturar pela “indústria da seca”, câncer da política e da sociedade nordestinas.

    A transposição mal esconde uma bem urdida trama para transformar a velha “indústria da seca”. em “hidronegócio”. É a negociata do século: usar da sede humana, abusando do imaginário da seca, para “justificar” a implantação do mercado da água bruta no Nordeste e no Brasil. Isso quando e se forem terminadas as obras fantásticas da transposição: 700 km de canais de 25m de largura por 5m de profundidade a céu aberto, cavados a maior parte do subsolo cristalino, 40 km de túneis, elevações de até 300m… Previstos 20 bilhões de reais até 2020, para a farra da corrupção em obras públicas e períodos eleitorais. E as necessárias obras complementares que ninguém fala?

    A transposição não tem nada a ver com a seca. Tanto que os canais do Eixo Norte, para partes do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte, por onde correriam 71% dos volumes transpostos, passariam longe dos sertões menos chuvosos e das áreas de mais elevado risco hídrico. E 87% dessas águas seriam para grandes usos econômicos intensivos em água, como a fruticultura irrigada, a criação de camarão e a siderurgia, para exportação. São dados dos Estudos e Relatório de Impactos Ambientais, públicos por lei, já que na Internet o governo só colocou peças de propaganda enganosa.

    Para as regiões de alto risco hídrico no Pernambuco e Paraíba, ao invés de canais e túneis, uma adutora de 9 m3/s, como propôs a Caravana Nacional Contra a Transposição em setembro, poderia satisfazer as necessidades reais.

    Mas as verdadeiras alternativas à transposição para todo o Nordeste e além são as 530 obras do Atlas Nordeste da ANA – Agência Nacional de Águas, órgão federal do Estado, que descentralizam a oferta de água para 1.356 cidades de nove estados, beneficiando 34 milhões de pessoas, e custam R$ 3,5 bilhões, metade dos custos da transposição até 2010. Para as áreas rurais, já existem mais de 140 tecnologias testadas pela EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária e pela ASA – Articulação do Semi-Árido Brasileiro, que congrega mais de 700 entidades da sociedade civil de todo o Nordeste. A pergunta se impõe e revela a farsa: por que a transposição e não essas alternativas?

    Meu jejum e oração não é mera “greve de fome”, não sou “suicida” nem adepto da “eutanásia”. Uma das mais profícuas tradições bíblicas e cristãs é o jejum e oração, necessários para expulsar certos demônios, conforme disse Jesus (cf. Mateus 17,21). Um dos movimentos mais profundos da história da humanidade tem sido a “Não Violência Ativa e Firmeza Permanente”, da tradição de um Gandhi. Agora mesmo, foi desencadeado um Movimento Jejum Solidário, que está crescendo em adesões em várias partes. São pessoas de religiões diversas ou mesmo sem religião confessional que jejuam por alguns dias em comunhão espiritual conosco. Que essa corrente de energia espiritual, sob a graça e o poder de Deus, toque o coração de homens obsedados pelo poder e o dinheiro! Não quero morrer, mas a vida do rio e do povo do rio e de todo o sertão nordestino vale meu sacrifício, se tiver que consumá-lo. “Para que todos tenham vida” (João 10,10).


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