"Estou certo que o projeto é bom para o país"

Márcia Rodrigues


  • A Tarde - O senhor era contrário à transposição. O que fez mudar de idéia e defender tão veementemente as obras?
    Geddel - Em primeiro lugar, a minha posição sempre foi muito genérica, até mesmo porque eu não conhecia o projeto de uma forma global. O que me fez passar de alguém que tinha dúvidas e que tinha uma postura mais antagônica ao projeto para alguém que o defende, foi o simples fato de me debruçar sobre o plano e ver de forma clara que em um país com tantas desigualdades e com tantos problemas esse projeto também propõe a redução da desigualdade social e o desenvolvimento econômico. Isso, além da busca de igualdade entre as regiões brasileiras, o que em nada absolutamente prejudica o Estado da Bahia, muito pelo contrário! Este projeto visa proporcionar e alavancar mais e mais investimentos para o nosso Estado. Até agora não vi um crítico dizer de forma objetiva que a retirada de 26 metros cúbicos de água por segundo no Rio São Francisco em sua margem pernambucana prejudique a Bahia.

    AT- Mas a Agência Nacional de Águas (ANA) publicou um mapa em que chama a atenção para as obras...
    Geddel - A ANA não diz que o projeto é caro. A ANA lançou um diagnóstico chamado Mapa da ANA, que os críticos da transposição utilizam pra vender a idéia de que aquela poderia ser a solução para a falta de água no Nordeste brasileiro, na região semi-árida e no Nordeste setentrional. Na realidade, as medidas que a ANA propõe, basicamente são a construção de poços artesianos, barragens subterrâneas, mini-barragens e de cisternas pra captação de água da chuva . São medidas complementares a um grande projeto que é o de transposição do Rio São Francisco. Não se pode piamente crer que a questão da água de Campina Grande, por exemplo, uma cidade com cerca de 500.000 habitantes, será resolvida com a criação de poços artesianos. Essas são medidas complementares que irão atender, como solução de engenharia, algumas áreas mais dispersas, mais profundas e de comunidades distantes. Isto já está sendo feito, já estamos investindo nesta questão agora. Para um projeto estruturante, como é a transposição, essa não é uma alternativa de substituição, mas sim, uma alternativa complementar, sobretudo quando se leva em conta que cerca de 25 mil poços artesianos foram furados no Nordeste setentrional. Existe uma área de solo fundamentalmente cristalino, o que significa dificuldade em encontrar água de qualidade pra abastecimento em consumo humano. Portanto, o Mapa da ANA é importante sim, mas como medida complementar às obras de transposição do Rio São Francisco.

    AT - Isso está relacionado ao projeto de revitalização do Rio São Francisco?
    Geddel - A revitalização é outra coisa. O Rio São Francisco vem sendo degradado, assim como outras bacias hidrográficas brasileiras. Encontra-se degradado em decorrência da ação do homem, pois este cortou as matas ciliares do Rio São Francisco para alimentar as indústrias siderúrgicas das Minas Gerais; Foi o homem que cortou as matas das margens para alimentar as caldeiras dos vapores que faziam a navegação do Rio. É o homem que traz sua pecuária até a margem do rio, facilitando o assoreamento. Portanto o que devemos fazer e já estamos fazendo é um processo de recuperação do rio degradado pela mão do homem. Hoje eu vejo muita gente falar em revitalização do Rio São Francisco, inclusive gente que não colocou um centavo no orçamento para revitalizar o rio. Nunca colocaram um centavo, por exemplo, para alimentar uma polícia florestal que pudesse combater os abusos dos pecuaristas e o uso de bombas clandestinas que retiram do São Francisco muito mais do que os 26 metros cúbicos por segundo do que se quer tirar para a transposição.

    AT- Não seria mais prudente primeiro recuperar o rio?
    Geddel - A revitalização é um processo contínuo uma ação continuada e já estamos fazendo a revitalização antes da transposição, mas temos que fazer durante e também depois. Já estamos plantando matas ciliares, fazendo contenção de margens para evitar assoreamento, estabelecendo a dragagem do Rio São Francisco, o que vai viabilizar inclusive a navegação do trecho Ibotirama-Juazeiro, e desenvolver uma ampla política de educação ambiental, para que depois de realizada a transposição, os problemas não tornem a aparecer.
    A revitalização do Rio já está sendo feita, existe no orçamento R$ 1,3 bilhão para isso. Vamos levar essa medida, e mesmo diante das críticas inclusive daqueles que reclamam muito e nunca tomaram a iniciativa de realizar a revitalização.

    AT - Ministro, uma das crítica ao projeto de transposição é que ele vai privilegiar às comunidades mais distantes - como Campina Grande, que o senhor já citou- em detrimento da população ribeirinha, do barranqueiro.
    Geddel - Esta é uma crítica intelectualmente honesta sem má fé e sem discurso ideológico. O que constatamos em nossas reuniões e nas visitas preliminares e por isso levamos ao conhecimento do presidente da República a proposta de implantação de um projeto titulado “Quero água pra todos” . O presidente já autorizou e disponibilizou, ainda este ano, obras de licitações no valor de R$ 50 milhões, que começarão assim que tivermos as licenças ambientais, e mais R$ 287 milhões ao longo dos três anos, totalizando R$ 307 milhões para o projeto. O “Água pra todos” vai utilizar as mais variadas soluções de engenharia para levar água às comunidades às margens do Rio São Francisco, que estejam a uma distância de 10 quilômetros do rio, nos 2.800km da sua nascente até a foz. Já catalogamos alguma coisa em torno de 1.800 comunidades e estamos avançando nas questões burocráticas pra lançarmos esse mutirão de licitações e resolvermos assim essas questões oriundas da crítica correta.

    AT – Há uma idéia generalizada de que a Bahia sairá prejudicada com a transposição. O Senhor como político baiano e com pretensões futuras, não teme que tocar essa obra possa lhe trazer conseqüências políticas futuras?
    Geddel -Primeiro: pretensões eu imagino ser muito mais fruto de sua generosidade do que alguma manifestação minha nesse sentido. Segundo: a questão da Bahia ser prejudicada. Eu volto a insistir: me digam onde que a Bahia será prejudicada. O máximo que se pode falar é que, como o Comitê da Bacia do São Francisco estabelece 320 metros cúbicos de água por segundo como limite pra uso comum, de forma egoísta querem fazer uma reserva de mercado de água para os próximos 50 anos. Isso é inadmissível num país desigual, constituído de irmãos como o nosso. Portanto, a Bahia não é prejudicada em nada. Só o Baixio de Irecê e o Salitre - projetos que estavam dormitando na gaveta há muitos anos e que nossa administração em seis meses está tirando do papel já licitou e encontra-se em fase de assinatura de contrato para dar a ordem de serviço -, retiram do Rio São Francisco 90m³/s de água. Portanto a Bahia não é prejudicada em nada, fora a suposição dos egoístas que querem fazer reserva de mercado de água. Já existiu também gente que quis fazer reserva de informática.
    E, quanto à questão do medo, eu não conheço esta palavra na vida pública. A minha vida sempre foi feita de enfrentamentos, sejam eles políticos ou administrativas. Sempre foram enfrentamentos muito fiéis às minhas convicções e por isso eu tive algum sucesso na vida pública, pois homem público que tem medo de tomar decisões imaginando que isso pode prejudicar o seu futuro desempenho eleitoral, não é digno de ser chamado de homem público. Eu faço as coisas que têm que ser feitas, compromissos movidos pelas minhas convicções, pela minha consciência e minhas crenças. Eu estou convencido de que esse é um projeto bom e importante para o Brasil. Se a maioria da população, em determinado momento, pensar diferente de mim esse será o preço que se tem que pagar na democracia. E eu não tenho medo de pagar preços.

    AT - Qual a sua experiência em percorrer o Rio?
    Geddel - Excepcional, tanto do ponto de vista pessoal, quanto do ponto de vista do conhecimento maior do Brasil. Do ponto de vista pessoal, foi uma visão emocionante você ver um rio nascer com um filete d´água, serpentear toda a Serra da Canastra, cair de uma altura inacreditável da Cachoeira Danta e sair serpenteando o Nordeste brasileiro, o semi-árido até desaguar no Atlântico, levando riqueza, vida, esperança aos ribeirinhos e à toda aquela região. Em termos de conhecimento do Brasil percebi um rio com dificuldades, muito pujante, forte, vivo e que tem muito a oferecer àqueles que dele precisam. Muitas vezes eu ouvir gente falando o que não conhece e não sabe. Eu volto a dizer que estão todos convidados a fazer essa viagem novamente para visualizar obras de aterro sanitário, de dragagem, de contenção de margens, de replantio de matas ciliares. Obras que já estão sendo realizadas e de fato estão sendo tiradas do papel e que o Governo Lula vai entregar um rio muito melhor do que recebemos.

    AT - O governo no Brasil está investindo para reduzir os aos riscos ambientais, mas as experiências internacionais não são muito animadoras, a transposição do Mar de Aral, por exemplo, foi um fiasco.
    Geddel - O Mar de Aral é uma coisa completamente diferente, não tinha nenhum estudo. Se tirou água além do que devia, o que levou o Mar de Aral, que era o receptor das águas, a um processo de salinização brutal e que acabou desgastando o rio. Existem outras experiências fantásticas como, por exemplo, na Austrália e a do Rio Colorado, nos Estados Unidos. Ainda temos exemplos aqui na América do Sul, no Peru e na China.
    O que é preciso entender que transpor água é tirar de um lugar e colocar em outro . Aqui mesmo tem uma transposição para abastecer Aracaju, que tira água do Rio São Francisco, leva por 100 kms e despeja na Bacia do Rio Sergipe. A água abastece Aracaju, uma cidade fora da Bacia do Rio São Francisco. Salvador é abastecida por uma transposição de água do Rio Paraguaçu. No Brasil já existe transposição de águas, assim como no mundo, que deram certo. O Mar de Aral é algo que precisa ser revisto para que não se repitam os erros daquele equívoco. Até por que foi feita numa época de ditadura, uma época sem informação, sem debate. Além das exigências que se tem hoje, e um órgão como o IBAMA, conceda uma licença ambiental como concedeu. É uma questão completamente diversa e que só encontra embasamento naquele discurso de quem tem má fé.

    AT – Ministro, o Banco Mundial também não é muito favorável à transposição e, inclusive, citou em relatório o caso da Espanha, considerado também desastroso e cujo projeto é muito semelhante ao nosso. O BIRD realmente se negou a financiar o projeto?
    Geddel - Absolutamente, até mesmo por que ninguém pediu o financiamento do BIRD, inclusive já tive dois encontros com eles e recebi convite do Banco Mundial para ir à Austrália e a outros países. Tive reunião com o diretor desta área, e estamos avançando naquilo que o Banco Mundial pode nos ajudar. Que é a ampla discussão no modo de operar as relações com os Estados; o mecanismo de operação de utilização da água. O Banco Mundial vai ser e já está sendo parceiro nesse projeto. Estou muito satisfeito com essa relação com o Banco Mundial.

    AT – O São Francisco é um rio nacional, por tanto os estados não podem legislar sobre ele, mas eles podem interferir através dos seus afluentes. Isso é um risco real ao projeto?
    Geddel - Em absoluto, o Rio é nacional e nós vamos fazer o grande entendimento com os Estados , mostrando de forma clara que o Brasil é uma Federação. Vamos trabalhar conjuntamente para que o desenvolvimento seja igual, e esse é um dos papéis do Ministério da Integração Nacional: equalizar as oportunidades de desenvolvimento. Os Estados vão participar e pra isso o Banco Mundial tem um papel fundamental que é ver o modelo de gestão que vamos colocar em funcionamento com participação e com a oitiva de todos. Minha relação com o BIRD tem sido muito boa e vamos apresentar um aprimoramento do que já foi feito no passado recente com a Fundação Getúlio Vargas, para que haja uma ampla discussão enquanto as obras avançam.

    AT – Por que o Governo deixou de usar o termo transposição?
    Geddel - Usamos integração de bacias ou transposição de águas do Rio São Francisco, o importante é que haja uma comunicação clara para que as pessoas entendam. O que não houve foi um esclarecimento preventivo, um absurdo, por exemplo, foi a idéia que transpor as águas é transpor o leito do rio. Pelo contrário, o rio vai continuar do mesmo jeito que está. A integração das bacias, a transposição das águas, eu acredito na capacidade do povo brasileiro, que bem informado vai entender o processo. Acho que o nosso grande desafio é dizer o que é o que, é mostrar que existem exemplos no Brasil e no mundo de transposições que resolveram o problema de regiões de semi-árido. E mostrar às pessoas que fomos egoístas, mesquinhos e que a grande maioria da população brasileira compreenda que esse país precisa ser mais igual, que o Nordeste setentrional não pode ser exportador de mão-de-obra desqualificada, não pode ser exportador de imigrantes para inchar grandes centros urbanos. E, uma das formas para resolver isso é levar água de beber, matar a sede dos animais, e sobretudo água para que essas pessoas possam produzir na agricultura familiar, empresarial, riquezas que ajudaram ao Brasil alimentar.

    AT - Sobre o Relatório do Tribunal de Contas da União??
    Geddel - Não existe relatório do Tribunal de Contas da União. O TCU é um órgão, que já falei e reafirmo, tem que se comportar como manda a Constituição. É um órgão auxiliar do Poder Legislativo, não encontra-se apto a governar, muito menos a dizer que vai interromper obra. Ele manda para que o Congresso Nacional examine as posições que ele quer contestar. Em nenhum momento ele determinou a paralisação de obras do Rio São Francisco, nem algo que atrase as obras. Até porque o edital de obras foi submetido previamente ao TCU, que através de acórdão o aprovou e elogiou. Agora, ele não pode simplesmente dizer “errei , fui mal”. Esse enfrentamento eu vou fazer com o TCU. Não podem existir instituições acima das outras e o TCU não é uma instituição que está acima de outra. Sei que estou levando os trabalhos à frente do Ministério da Integração Nacional com seriedade e altivez suficientes pra me permitir ter humildade quando necessário para reconhecer e corrigir erros. Nesse caso não há erro a ser corrigido.

    AT - Nós temos o maior semi-árido do Nordeste e conseqüentemente do país. Já que a transposição não vai nos beneficiar tanto em que saímos ganhando?
    Geddel - Existem dois caminhos: já estamos beneficiando o Estado da Bahia, na medida em que estamos resgatando o Rio São Francisco e os projetos de irrigação do Baixio de Irecê e do Salitre. Esses dois projetos sozinhos - se considerarmos que na agricultura moderna um hectare de terra proporciona 1,5 emprego indireto –juntos e quando estiverem concluídos vão gerar mais de 200 mil empregos para filhos e filhas, homens e mulheres da Bahia, na região de Juazeiro, Itaguaçu e Xique-Xique. Projetos que alavancarão o desenvolvimento. Além disso, já está no PPA (Plano Plurianual) colocado no Congresso e de nossa iniciativa, a exploração - aí sim com medidas previstas pelo Mapa da ANA - do aqüífero de Tucano, na região do Raso da Catarina. Este é um dos maiores aqüíferos do Brasil e a partir daí você pode levar água para a redenção do semi-árido. Ainda na Codevasf, nós pedimos para deixar prontos os estudos para a alternativa futura do chamado eixo-sul, que seria também uma ponta de transposição de água do São Francisco e que interligaria vários rios: Barris e Paraguaçu. Portanto, há projetos claros para a solução dos problemas no semi-árido da Bahia e estamos fazendo isso de forma concreta, sem discursos mas com ações reais e passíveis de serem vistas.

    AT - E a crítica de que a transposição irá beneficiar grandes grupos que investirão em megas projetos de irrigação?
    Geddel - Essa corresponde às críticas que eu não reputo serem honestas. Se você falar que a transposição vai servir também para a produção de alimentos, eu digo e reafirmo que o Brasil precisa de produção de alimentos venha de onde vier. O que não podemos querer é que ,através de uma reserva de mercado, impedir a geração de outras alternativas brasileiras. Temos que nos credenciar pela competição, pela capacidade de sermos competitivos e assim é que a Bahia vai crescer, é assim que nós podemos fazer com que esse Estado encontre sua vocação de ser um grande celeiro de desenvolvimento do Brasil. Não tenho nenhum receio de participar de qualquer debate que não seja debate ideológico e panfletário. Estou certo que esse projeto é bom para o país.


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