Aumento da temperatura do planeta pode provocar redução na oferta de água
Emília Valente
Não bastasse o uso indiscriminado dos recursos hídricos, o desmatamento, a contaminação de rios e lagos por lixo, esgoto, dejetos químicos e pelos poluentes industriais e agrícolas, a oferta de água no planeta está sob a ameaça de um outro vilão: o aquecimento global. O aumento da temperatura da Terra – causado, segundo pesquisadores, pela emissão dos gases do chamado efeito estufa – não provoca apenas mudanças climáticas, aumento do nível dos oceanos e derretimento das calotas polares. A escassez de água (com conseqüentes problemas para a agricultura e produção de alimentos) também faz parte do coquetel nada agradável de efeitos do aquecimento global.
“É como se o planeta estivesse com febre; uma alteração de apenas alguns graus na temperatura é capaz de provocar uma variedade de sintomas”, diz o meteorologista Heráclio Alves, da Superintendência de Recursos Hídricos (SRH) do estado. E a julgar pelo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas ou International Panel on Climate Change (IPCC), divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no início de fevereiro deste ano, a temperatura do planeta em 2100 terá aumentado entre 1,8º C e 6,4ºC em relação a 2000.
E esse aumento na temperatura – seja levando em conta o cenário mais otimista ou o mais sombrio – implica em alterações na quantidade e no regime das águas do planeta. Para termos um exemplo prático, não é preciso sair do território baiano. A região do semi-árido é considerada uma das mais vulneráveis às mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global, com previsão de um aumento de temperatura entre 2,2ºC e 4,0ºC ao logo do século. “Nessa região, as pesquisas apontam para uma redução significativa no volume das chuvas, com períodos mais longos de estiagem”, revela o meteorologista. Para completar, as altas temperaturas tendem a aumentar a evaporação para a atmosfera, promovendo uma redução no volume de águas armazenadas.
Essas previsões estão em sintonia com os resultados da série de estudos sobre o impacto do aquecimento global no Brasil divulgada também em fevereiro deste ano pelo Ministério do Meio Ambiente. No cenário mais crítico delineado pelo estudo – levando em conta os níveis mais altos de emissões de gases de efeito estufa – fala-se em “aridização” do semi-árido até o final do século XXI. “Não seria exatamente um deserto no Nordeste, mas, com esse clima, a agricultura de subsistência ficaria praticamente inviabilizada na região”, acredita Heráclio Alves. Resultado: grandes contingentes se veriam obrigados a migrar para as cidades do litoral nordestino e do Sudeste. E, para completar, a diminuição no volume de chuvas prejudicaria o processo de geração de energia pelas hidrelétricas.
As mudanças no regime de chuvas não ocorrerão da mesma forma em todo o Brasil. Mas nem por isso as perspectivas tornam-se mais amigáveis. Ao contrário da tendência identificada no semi-árido e na região amazônica, no Sudeste do País a previsão é de que a quantidade de chuva não diminua. Mas as precipitações deverão se concentrar em períodos menores, com grandes temporais, enchentes e períodos de seca irregulares. “Quando você tem eventos intensos de chuva, durante verões quentes com muita evaporação, não há vantagens em termos do volume de água que pode ser armazenado, mas apenas prejuízos para a comunidade”, ressalta o meteorologista Heráclio Alves.
A seu favor, diante desse cenário de projeções pouco animadoras, o Brasil tem o fato de ser o país com maior disponibilidade de recursos hídricos renováveis do planeta. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), temos uma disponibilidade hídrica média de 8.233 km3/ano (18% do total mundial), se computadas as águas que advêm de outros países (2.815 km3/ano). Resta saber se seremos capazes de cuidar, usufruir e gerir esses recursos com responsabilidade.