A transposição de rios é um assunto polêmico em todo o mundo. Defensores e críticos se munem dos argumentos possíveis e, como em um cabo-de-guerra, usam o máximo de força para vencer a disputa. Dentre os argumentos, as experiências ao redor do mundo são citadas como bem ou mal-sucedidas, conforme o posicionamento de cada um. À exceção é a transposição na bacia do Mar de Aral, ponto convergente entre ambos os grupos que consideram-na desastrosa.
Em entrevista a este jornal, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, ao tempo em reconhece o fiasco do Mar de Aral, ressalta como experiências “fantásticas” as transposições na Austrália, Estados Unidos, Peru e China. “O Mar de Aral é uma coisa completamente diferente, não tinha nenhum estudo. Se tirou água além do que devia, o que levou o Mar de Aral a um processo de salinização brutal”, explicou.
No estudo Transposição de Água entre Bacias e a Escassez, a Rede WWF, uma das principais organizações mundiais de conservação da natureza, afirma que projetos de transposição de rios, cada vez mais comuns no mundo, representam um sério risco aos recursos hídricos do planeta. O estudo, disponível para download em inglês na homepage da organização (www.wwf.org.br), se dedica a descrever sete projetos de transposição já implantados, em implantação ou em discussão pelo mundo, inclusive os mesmos citados pelo ministro Geddel.
São as experiências adotadas na Austrália, África do Sul e Espanha, China, Grécia, Peru e Brasil. À transposição do Rio São Francisco são dedicadas três páginas, onde são analisados argumentos favoráveis e contrários ao projeto. Apesar disso, o estudo da WWF é categórico ao afirmar que obras de transposição são sempre muito caras, trazem impactos negativos ao meio ambiente, comprometem fluxos naturais de rios e a capacidade dos cursos d’água de promover os usos múltiplos de recursos hídricos nas bacias doadoras de água, como abastecimento, navegação e irrigação.
O consultor do Projeto de Integração do Rio São Francisco com as bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional, Rômulo Macedo, tem feito uma defesa ardorosa nos meios de comunicação, tachando-o de “um projeto de gestão dos recursos hídricos”. Em texto divulgado na homepage do Ministério da Integração Nacional (www.integracao.gov.br), ele afirma que estudos mostram que a integração não terá impacto no rio, proporcionando condições melhores de gestão da água no semi-árido brasileiro. E ressalta que órgãos competentes nas esferas federais e estaduais já aprovaram o projeto, que caminha paralelo com mais 36 programas ambientais.
Para a diretora da Associação de Engenheiros Agrônomos da Bahia e integrante do Fórum Permanente em Defesa do São Francisco, Maria Higina do Nascimento, os projetos com menor impacto são os de transposição interna (uso da água na própria bacia). “A transposição que se dá onde o rio já passa tende a dar mais certo”, afirma a engenheira agrônoma, que lembra as experiências de uso das águas do São Francisco nos municípios de Irecê e Juazeiro, na Bahia.
Principais projetos de transposição:
• Mar de Aral, Ásia Central - Situado entre o Uzbequistão e o Cazaquistão, na Ásia Central, o Mar de Aral já foi o quarto maior mar interior da Terra, com 66 mil quilômetros quadrados. O desvio das águas dos rios Amu Daria e Sir Daria para projetos de irrigação das plantações de algodão, a partir de 1939 pelo governo da extinta União Soviética, consumiu 90% da água que chegava ao Aral, reduzindo-o a um terço do tamanho original. O que era fundo do mar transformou-se em deserto, com sérios impactos sobre a economia da região, especialmente a pesqueira. A população ainda tem que conviver com doenças resultantes das toneladas de área, sal e pesticidas espalhadas pelos ventos.
• Tagus-Segura, Espanha - Concluída em 1978, a obra tem 286 km de extensão e vazão média transportada de 33 m3/s. Apresentada com um exemplo de transposição bem-sucedida para a irrigação e o abastecimento urbano no EIA-RIMA elaborado pela Jaakko Poyry-Tahal, os críticos afirmam que o projeto não conseguiu atingir o objetivo principal e induziu uma demanda ainda maior de água, necessitando de novos projetos de transposição a serem construídos. Também apresenta problemas de salinização do solo.
• Rio Snowy, Austrália – Iniciado em 1949, o projeto conta com 16 barragens, sete estações hidrelétricas, 145 km de túneis e 80 km de aquedutos. O custo inicial da obra, destinada à geração de energia e irrigação, foi orçado em US$ 630 milhões. O projeto de transposição proporcionou um incremento na oferta de empregos na região, estimulou o turismo. Em contrapartida, houve conflitos entre as regiões doadora e receptora, e atualmente a transposição demanda novas soluções para suprimento de água, como poços, reutilização e dessanilização.
• Colorado-BigThompson, Estados Unidos – Construído em 1938, envolve o deslocamento das águas do Rio Colorado para o Rio Big Thompson. São 29 cidades beneficiadas e 630 mil acres de terra irrigados. Há problemas decorrentes de conflitos sobre o direito das águas entre os estados de fronteira, problemas técnicos ambientais, como falha de uma das barragens. Risco à vida de certas espécies de aves e peixes locais.
Dados da transposição
Estados doadores: Bahia, Sergipe, Alagoas e Minas Gerais
Estados receptores: Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte