Pensar uma empresa que cultive uma relação ética e transparente com todos os seus públicos e que tenha metas compatíveis com o desenvolvimento sustentável da sociedade. Há uma década esta idéia poderia parecer utópica. Rapidamente o quadro mudou e hoje desta empresa também se exige que preserve os recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeite a diversidade e promova a redução das desigualdades sociais.
Estas são algumas das características que definem uma gestão socialmente responsável, de acordo o Instituto Ethos de Responsabilidade Social, cada vez mais adotada pelas empresas brasileiras. A segunda edição da Pesquisa Ação Social das Empresas, realizada pelo Instituto de Pesquisas Aplicadas (Ipea), revelou que entre 2000 e 2004 houve um crescimento de 10% no número de empresas privadas do país que realizaram ações sociais em benefício das comunidades. Vale ressaltar que a ação social é apenas uma das facetas da responsabilidade social.Hoje, aproximadamente 600 mil empresas atuam voluntariamente. Em 2004, elas aplicaram cerca de R$ 4,7 bilhões em investimentos sociais, o que naquele ano correspondia a 0,27% do PIB brasileiro. Passados alguns anos desde que se falou pela primeira vez em responsabilidade social, em meados da década de 1990, a discussão sobre a necessidade de as empresas adotarem formas de gestão capazes de garantir a sustentabilidade de suas práticas produtivas e, em última instância, do planeta, se aprimorou. “As empresas precisam repensar seus modelos de gestão para que o único indicador de sucesso não seja o lucro”, afirma o secretário-geral do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), Fernando Rossetti.
Com o crescimento da preocupação mundial, problemas como o efeito estufa, as mudanças climáticas e a extinção das espécies, as empresas, que ao longo dos últimos anos passaram a concentrar mais riqueza e também maior poder de decisão, começaram a exigir compromissos inadiáveis com essas causas. Na análise da professora da Escola de Administração da UFBA Paula Schommer, as empresas devem cumprir seu papel de atores políticos que podem participar da definição de políticas públicas mais avançadas para o país. “Precisamos de algumas revoluções de comportamentos que precisam mudar mais rápido, mas o desafio é o da prática. É preciso que a sociedade se mobilize e com urgência”, observa.
Segundo ela, a sociedade hoje exige das empresas uma atitude diferente, com comportamentos mais éticos e socialmente responsáveis. “As empresas são parte da sociedade e isso define as regras de conduta e as expectativas que temos em relação a elas. O fato de cumprirem ou não determinados compromissos éticos vai fazer diferença na hora do consumo, pois o público irá optar por empresas que adotarem melhores práticas”, pontua.
A atuação de entidades da sociedade civil organizada, como o Instituto Ethos, o GIFE, o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e de outras iniciativas que se propões a debater, discutir e dar encaminhamento prático para essas questões foi fundamental para o avanço das práticas sociais privadas. Tanto que hoje, também com a definição clara de que o investimento social é a aplicação voluntária de recursos, de forma estratégica e continuada, a preocupação em diferenciá-lo das ações assistencialistas se tornou um esforço de menor escala. A preocupação já está voltada para como ampliar a aumentar esses investimentos sociais e de como mesurar seus resultados.
As inúmeras pesquisas realizadas regularmente pelos principais institutos são um valioso instrumento para a orientação e o planejamento desses investimentos. Exemplo é a própria pesquisa do Ipea. Em sua segunda edição, o documento iniciou a construção inédita de uma série histórica que permite acompanhar a evolução do comportamento da iniciativa privada na área social desde finais da década de 1990. “As pesquisa é um documento fundamental para orientar a atuação das empresas na área social, mostrando áreas prioritárias e o que pode ser feito para aprimorar os investimentos”, afirma a consultora do Idis, Juliana Gazzotti.
Outro ponto destacado por todos os que incorporam o conceito de responsabilidade social é que a prática não tem ponto final, fator que, inclusive, torna mais acalorado os debates em torno da criação da norma ISO 26000. “Existe uma dúvida se deve ou não haver certificação para a Norma, pelas diferenças existentes entre os países e, principalmente, para evitar que as empresas, uma vez certificadas, freiem o processo de autodesenvolvimento”, explica Schommer.Entre a cruz e a caldeirinha
É papel das empresas investir em políticas públicas? Com as demandas sociais cada vez mais crescentes, segundo Schommer, esta é uma pergunta superada. De acordo com ela, uma vertente crítica de estudiosos ainda defende que o setor privado não pode ganhar destaque como o grande responsável pelas questões sociais. “Essa vertente considera que as empresas são as grandes geradoras da exclusão, da exploração própria do sistema capitalista globalizado, sendo incompatível que elas mesmas cuidem da redução das mazelas do sistema do qual são locomotiva e que é insustentável”, explica.
Para o presidente da Fundação Belgo-Grupo Arcelor, Articulador do Instituto Ethos em Minas Gerais, Álvaro Machado, nenhuma empresa pode mais fugir do investimento social. “Hoje todas as empresas tem um papel a desempenhar, seja ela de qualquer porte. Elas têm de dar resultados nas dimensões econômica, ambiental e social, dentro de um padrão de qualidade e de ética”, ressalta. Ele considera que o fator econômico sempre vai ter mais peso, pois se trata de uma empresa. “Mas hoje é preciso ter equilíbrio”, salienta.
Este equilíbrio também é defendido pela consultora do Idis Juliana Gazzotti. Segundo ela, as organizações sociais, o Governo ou o empresariado sozinhos não podem fazer nada se não houver articulação entre todas as esferas. “Eu ainda acredito muito no Estado. Penso que o setor privado pode apoiar o setor público, mas cabe a este último a universalização das políticas públicas”, opina. “As empresas têm de trabalhar em parceria, principalmente no processo de gestão, mas não devem substituir o Estado”, completa.
Para o secretário-geral do Gife, Fernando Rossetti, a discussão sobre os limites do papel do Estado e da sociedade e toda a política neoliberal, o crescimento do movimento da sociedade civil organizada, a globalização econômica e a crise social vivida por países em desenvolvimento são alguns dos fatores que integram um cenário no qual a necessidade de realizar investimentos sociais torna-se quase que uma regra. “Muitas empresas começam fazendo investimento social, ampliam sua visão estratégica dessa prática e acabam adotando um modo de gestão socialmente responsável, pois há muito que fazer”, defende.Fieb estimula RSE entre associados
O presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Jorge Lins Freire, considera que empresas socialmente responsáveis são também mais competitivas, com produtos melhores e maiores oportunidades de mercado. “A cultura dos consumidores está mudando e eles procuram empresas que atendam também a determinados princípios éticos”, declara.
A Fieb possui onselho de Responsabilidade Social,que reúne empresários e representantes de diversos setores das empresas para discutir ações que motivem as formas de gestão socialmente responsáveis. “Essa prática hoje não se limita a ações assistencialistas, mas abarca desenvolvimento de programas estratégicos que atendam às demandas das diversas comunidades. A própria sociedade hoje exige que as empresas tenham compromissos éticos, que devem dentro da própria empresa, na maneira de gerir seus negócios”, afirma.Responsabilidade de todos
Para exercer uma das facetas da responsabilidade, que implica também em realizar investimento social, muitas empresas optam por criar Fundações e Institutos separados, com uma clara definição de papéis. Dessa forma, há diferenciação do assistencialismo e do investimento social, visto como a forma de aplicação de recursos voluntária, estratégica, e continuada.
Também se destaca a compreensão de que investimento social é só um dos muitos compromissos de uma empresa socialmente responsável. “É possível fazer investimento social sem ser socialmente responsável, mas uma empresa socialmente responsável necessariamente faz esse tipo de investimento”, eslcarece Juliana Gazzotti, do Idis. A esses valores se agregam outros, como o de Empresa Amiga da Criança, selo da Fundação Abrinq. “A Empresa Amiga da Criança cumpre os dez compromissos de preservação e desenvolvimento da infância e da adolescência”, ressalta o gerente do programa, José Caros Bimbatte.Referência em Responsabilidade Social Empresarial
Ethos
O Ethos é uma associação de empresas, sem fins lucrativos, criada em 1998 com a missão de mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerir seus negócios de forma socialmente responsável, tornando-as parceiras na construção de uma sociedade sustentável e justa.
Não faz parte de suas atividades a consultoria. O Instituto também não autoriza ou credencia profissionais a oferecer qualquer tipo de serviço em seu nome e não é entidade certificadora de responsabilidade social que fornece selos com essa função. O trabalho de orientação às empresas é voluntário, sem nenhuma cobrança ou remuneração.
Seus mais de 1,2 mil associados têm faturamento anual correspondente a aproximadamente 35% do PIB brasileiro e empregam cerca de 2 milhões de pessoas, tendo como característica principal o interesse em estabelecer padrões éticos de relacionamento com funcionários, clientes, fornecedores, comunidade, acionistas, poder público e com o meio ambiente. Hoje, o Ethos é referência internacional no assunto e desenvolve projetos em parceria com diversas entidades de todo o mundo.http://www.ethos.org.br, (11) 3616-7575
Fundação Abrinq
Organização “amiga da criança”, a Fundação Abrinq é uma entidade sem fins lucrativos, criada em 1990, mesmo ano da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Sua missão é promover a defesa dos direitos e o exercício da cidadania para essa faixa da população. Pessoas, empresas e agências nacionais e internacionais que lutam pela causa da criança e do adolescente mantêm a Fundação, que atualmente beneficia milhões de crianças e adolescentes através de suas ações, programas e projetos, contando com a ajuda de muitos parceiros.
Um de seus programas, a Empresa Amiga da Criança, confere um selo para a empresa que cumpre dez compromissos com a infância e a adolescência, prevenindo e erradicando o trabalho infantil, garantindo saúde e educação aos filhos de funcionários e também investindo em ações que melhorem a qualidade de vida de crianças e adolescentes.http://www.fundacaoabrinq.org.br, (11) 3848.8799
GIFE
Primeira associação da América do Sul a reunir organizações de origem privada que financiam ou executam projetos de interesse público. Em 2005, suas 96 associadas investiram aproximadamente R$ 1 bilhão em projetos de interesse público, prioritariamente nas áreas de educação, cultura e artes e desenvolvimento comunitário.
O Gife oferece aconselhamento estratégico e informações sistematizadas para suas associadas e o público em geral, contribuindo para o aperfeiçoamento e difusão dos conceitos e práticas de investimento social privado, estimulando parcerias na área social entre o setor privado, o Estado e a sociedade civil organizada.
Com 11 anos de atuação, se consolidou como uma referência no Brasil sobre investimento social privado e contribui para a criação de outras associações similares na América Latina. No Centro de Referência Patricia Bildner, disponibiliza diversos títulos sobre investimento social privado e terceiro setor.Grupo de Instituições, Fundações e Empresas
http://www.gife.org.br
IDIS
O Idis é uma organização comprometida com o desenvolvimento social por meio da promoção e estruturação do investimento social privado.
Sua atuação se dá de duas maneiras: desenvolvendo iniciativas próprias, com consultoria a empresas, fundações, institutos e famílias, e indivíduos que desejam realizar ações sociais ou estruturar as já existentes. O Instituto também realiza e divulga pesquisas e práticas de investimento social.
Criado em 1999, o Idis considera que seu compromisso com o desenvolvimento social é expresso por meio do aumento do impacto do investimento social privado.Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social:
http://www.idis.org.br, (11) 3044-4686
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"Presidente da FIEB, Jorge Lins Freire: empresas socialmente responsáveis são mais competitivas" |