As pequenas e médias empresas da América Latina estão praticando mais a responsabilidade social e o Brasil é o terceiro país mais preocupado com a prática, segundo o gerente interino de Desenvolvimento Sustentável do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Antônio Vives, durante a abertura da IV Conferência Interamericana sobre Responsabilidade Social da Empresa, que ocorreu no mês passado, em Salvador. A afirmação é fruto da pesquisa do BID junto a 1,3 mil empresas latino-americanas. Durante o evento, foram revelados ainda os dados de um estudo feito pela Federação de Indústrias do Estado do Bahia (Fieb), no âmbito de 163 empresas baianas, confirmando que mais da metade das companhias do estado desenvolve políticas de responsabilidade social.
A conferência colocou em pauta o tema Um Bom Negócio para Todos e discutiu o impacto dos negócios no desenvolvimento sustentável das Américas e o papel desempenhado pelas empresas. O tema buscou dar foco nos casos de gestão socialmente responsável na América Latina que têm contribuído para ampliar os resultados das empresas e para melhorar a sociedade. “O propósito da conferência é contribuir para um setor privado responsável por questões sociais e ambientais e que tenha um impacto positivo na geração de riquezas, na criação de empregos e no bem-estar da sociedade. Desse modo, cria-se também um ambiente mais estável, mais propício para as empresas, governo e sociedade civil”, explicou Vives.
Esclarecendo que responsabilidade empresarial “não é assistencialismo”, Vives sustentou que a consciência do impacto de produção das empresas no entorno em que operam vem se tornando uma tendência do modo de operação das grandes organizações mundiais. O objetivo da conferência, que continua tendo ênfase regional (leia boxe) é contribuir para a disseminação do conceito e por isso, para o presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young, o evento ocorreu no Nordeste. "A região tem uma importância muito estratégica, porque se situa na faixa de maior insolação do planeta e tem condições para o desenvolvimento de fontes de energias alternativas”, disse.
Para o presidente da Fieb, Jorge Lins Freire, a questão da sustentabilidade depende de um processo educativo junto às empresas. Segundo ele, todo o Sistema de Federação das Indústrias já vem desenvolvendo uma série de iniciativas com as empresas com o objetivo de desenvolver uma consciência ética, de negócios sustentáveis, inclusive de projetos sociais sustentáveis.
De acordo com o superintendente do Serviço Social da Indústria (Sesi) - braço do Sistema Fieb que executa as ações de responsabilidade social empresarial- , Manoelito Souza, o atendimento a esta demanda se dá de duas formas: executando os projetos ou dando consultoria às empresas interessadas. “A qualidade de vida do trabalhador, a exploração dos recursos naturais estão no foco das empresas, hoje”, afirmou, enfatizando que a responsabilidade social se tornou “uma tendência atual no mundo inteiro”.
Freire complementou dizendo que, aos poucos, as empresas terão incorporado a consciência de que, conceitualmente, responsabilidade social implica em competitividade e maiores oportunidades de mercado.”A cultura dos consumidores está mudando e eles procuram empresas que atendam também a determinados princípios éticos”, pontuou. Por isso mesmo, segundo ele, trata-se de “um bom negócio para todos”, tal como enfoca o tema central do evento. De fato, não só as pesquisas do BID e da Fieb apontam para esta direção. Também os resultados da VII Pesquisa Nacional sobre Responsabilidade Social nas Empresas, realizada pelo Ires (Instituto ADVB de Responsabilidade Social) confirmam a tendência (leia boxe).
Vives disse ainda que a conferência propôs às empresas que atuam nas Américas “que percebam que ao fazer seus negócios de maneira responsável, terão um bom resultado financeiro em longo prazo". “A empresa que pratica a Responsabilidade Social não só usa eficientemente os recursos naturais, como desenha e oferece produtos ao cliente que sejam mais úteis e necessários para ele”, completou. Para finalizar, Vives enfatizou que, para o BID, que quer contribuir para a eliminação da pobreza, um setor privado responsável é fundamental para o desenvolvimento econômico da América Latina e Caribe.
Ênfase regional
Como nos anos anteriores, a Conferência Interamericana sobre Responsabilidade Social Empresarial manteve ênfase regional, concentrando-se no impacto da responsabilidade social empresarial no desenvolvimento econômico e social eqüitativo. Para tanto, foi criada uma agenda mais participativa, com um sistema de seleção de trabalhos para as sessões paralelas e muitos experts em uma variedade de temas relacionados com a responsabilidade social nas empresas. Entre os participantes, James Austin, da Universidade de Harvard, Roberto de Jong, da Corporação de Desenvolvimento Holandesa, Guilherme Leal, da Natura e Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos.
Nesta edição foi introduzida uma nova modalidade de seleção competitiva de sessões paralelas por meio de uma convocatória aberta para organizá-las, possibilitando um conjunto de atores, organizações e programas de um grande número de países da América Latina e Caribe. A proposta se concentrou no intercâmbio produtivo de idéias e pontos de vistas diversos.
Além das sessões plenárias, sessões paralelas se encarregaram do debate de temas como transparência e governança corporativa, responsabilidade e prestação de contas, fortalecimento da sociedade civil, ética de negócios, condições de trabalho, investimento social, comércio justo, os objetivos de desenvolvimento do milênio, alianças entre múltiplos interessados (stakeholders), populações vulneráveis, gênero e populações indígenas, cadeias de fornecimento responsáveis, o meio ambiente e acesso a oportunidades econômicas para todos.
Logo depois da IV Conferência Interamericana sobre Responsabilidade Social Empresarial, o BID promoveu a Conferência sobre Responsabilidade Social Empresarial na Europa, América Latina e Caribe. Em parceria com o governo da Dinamarca, o evento discutiu o tema O Melhor de Dois Mundos. De acordo com o gerente interino de Desenvolvimento Sustentável do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Antônio Vives Antônio Vives, tanto na Europa como na América Latina existe um crescente interesse sobre a responsabilidade social empresarial entre as empresas privadas. Além do que estas empresas estão vivenciando enfoques inovadores dentro do conceito de responsabilidade social.
O evento pretendeu explorar a experiência dos participantes, adaptando as "melhores práticas de negócios às necessidades específicas e às condições socioeconômicas particulares de ambas as regiões”, disse Vives. Com isso, o que o BID espera com a realização consecutiva das duas conferências em Salvador, é que a iniciativa contribua para a formulação de políticas mais conscientes em torno do conceito. Segundo Vives, o BID tem como meta estabelecer um processo para compartilhar regularmente informações e práticas empresariais e de políticas, pesquisa acadêmica e atividades de organizações não-governamentais.
Pesquisa do Ires confirma tendência
A VII Pesquisa Nacional sobre Responsabilidade Social nas Empresas, realizada pelo Ires (Instituto ADVB de Responsabilidade Social), revelou que as empresas estão se preocupando mais com sua atuação social. Cerca de 92% das 3110 empresas que responderam ao questionário desenvolvem projetos de ação social voltados à comunidade. Entre as entrevistadas 87% disseram que a responsabilidade social faz parte da visão estratégica nas suas decisões.
A pesquisa foi realizada entre junho e agosto do ano passado com empresas de todas as regiões brasileiras. Entre as instituições pesquisadas, 56% são de médio porte, 33% são de grande porte e 11% de pequeno porte. Em seus projetos de responsabilidade social, a maioria beneficia os jovens, contemplados por cerca de 60% das ações das empresas, e, logo depois as crianças, com 51% das iniciativas. A mesma pesquisa índica que as companhias injetam mais recursos em programas de Educação, Meio Ambiente, Cultura, Saúde e Desenvolvimento Comunitário e Mobilização Social.
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